O Ronaldo esteve para vir para o Belenenses, mas veio o Cleison, que tinha mais nome...

"(...) Li no jornal "i" de quarta-feira, dia 5, um tema curioso que aproveito para partilhar.
Fez esta quarta-feira 16 anos que o Ronaldo (o brasileiro actualmente conhecido como "Ronalducho") marcou o seu primeiro golo como profissional. Foi contra o Belenenses, num amigável com o Cruzeiro em que perdemos 2-0. O curioso é que o Figueiredo, então guarda-redes, afirma ao jornal que o Ronaldo esteve perto do Belenenses mas na altura o clube preferiu o Cleisson porque tinha mais nome...(...)" Gennaro

Ronaldo 'Fenómeno' marcou o primeiro golo sénior no dia 5 de Agosto de 1993. Foi no Restelo, ao Belenenses.

"Há patrocínios e patrocínios, mas o da Coca-Cola vingou mais que todos em 1987, quando vestiu 13 clubes brasileiros (São Paulo, Corinthians, Palmeiras, Santos, Grémio, Internacional, Flamengo, Vasco da Gama, Fluminense, Botafogo, Cruzeiro, Atlético Mineiro e Bahia). Só um, porém, é que deu continuidade.


Em Agosto de 1993, o Cruzeiro apresentou-se em Portugal, com Coca-Cola nas camisolas azuis e com um tal de Ronaldo. Numa semana, o jovem de 16 anos estreou-se com o Benfica, em pleno Estádio da Luz, no dia 3 de Agosto, com 15 mil espectadores, e despediu-se nas Antas, onde o avançado brasileiro embelezou a festa do centenário do FC Porto, na noite em que Rabah Madjer voltou ao palco que o consagrou. Pelo meio, o dia 5 de Agosto, o da consagração, o do primeiro golo de sempre. Ao Belenenses, no Restelo.

Lançado por Carlos Alberto Silva, o célebre CAS (não confundir com Kas, outra bebida gaseificada, rival da Coca-Cola) que acabara de ser bicampeão português pelo FC Porto, em 1992 e 1993, Ronaldo marcou a Figueiredo. O guarda-redes não se importa. "Só é positivo por ser de quem é."

Para jogar em Portugal, o fenómeno brasileiro teve de fintar a lei. A profissão de torneiro mecânico ficou popularizada no Brasil através do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Mas ele não é o único filho famoso da metalurgia. Ronaldo foi registado nessa profissão, embora nunca tenha passado perto de uma fábrica.

Acontece que dar-lhe um emprego foi a maneira encontrada pelo Cruzeiro para que Ronaldo, com apenas 16 anos, pudesse entrar em torneios oficiais. Pela legislação brasileira, um jogador da formação só podia actuar caso estudasse ou trabalhasse.
Como a transferência para algum colégio de Belo Horizonte ainda não havia sido feita, o presidente cruzeirense de então, César Masci, conseguiu que Ronaldo fosse registado na empresa São José Ferramentas e Peças Lda., de propriedade de um conselheiro do clube.

Ronaldo, dono da carteira de trabalho número 61.505, assinou contrato com o Cruzeiro a 4 de Janeiro, mas a inscrição na Federação Mineira de Futebol só foi feita a 10 de Fevereiro. Daí à fama foi um passo, tão natural como a sua sede. Primeiro, dois golos na estreia pelos juniores (4-1 ao Botafogo de Matosinhos). Depois, a estreia profissional, com o Caldense, em Poços de Caldas, para o campeonato mineiro. Finalmente, o primeiro golo. O tal do Restelo.

Figueiredo, agora com 49 anos, lembra-se como se fosse ontem. "Foi um cruzamento da esquerda e ele apareceu a cabecear, perto da marca de penálti. Esteve para vir para o Belenenses, mas veio o Cleisson, que tinha mais nome."

CAS também tem boa memória. "Só tínhamos um avançado sénior para essa digressão. Era o Totó. Então, perguntei ao Benecy Queiroz [supervisor de futebol do Cruzeiro] se havia algum talento escondido. Ele indicou-me o Ronaldo. Na Luz, Ronaldo entrou na segunda parte. No Restelo, foi titular e marcou na primeira parte. Nas Antas, perdemos 3-1, mas aí já o Inter andava atrás dele."

No regresso ao Brasil, Ronaldo já era uma estrela mas continuava a ganhar mal. Menos que o salário mínimo no Brasil (380 reais). Bastou uma entrevista fenomenal à Rádio Itatiaia, de Belo Horizonte, a queixar-se do salário e de ainda viver na Toca da Raposa (centro de treinos do clube) para tudo mudar. Dois dias depois, o Cruzeiro já aumentara o ordenado de Ronaldo, bem como lhe entregara um apartamento novinho em folha.

O primeiro anúncio da Coca-Cola apareceu num jornal norte-americano em 1893, a dizer "Coca-Cola... Estimulante!" Cem anos depois, Ronaldo, patrocinado pela Coca-Cola e lançado por CAS, deu início à carreira. Estimulante.

In jornal i por Rui Tovar, edição de 5 de Agosto de 2009
Caricatura de Ronaldo (Ex-Fenómeno e actual Ronalducho) retirada, com a devida vénia, do Blog CARICATURAS DE GRIFE

Cleison Edson Assunção

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ADEUS RONALDO
Sem vídeo, goleiro que levou 1º gol de Ronaldo guarda tudo na memória
'Sabíamos que ele era fora do normal', diz o português Figueiredo, que defendeu o Belenenses em amistoso com o Cruzeiro em 1993.

Amistoso de pré-temporada do Belenenses, público pequeno e poucas - ou nenhuma? - câmeras de televisão no estádio Restelo, em Lisboa. Mas o dia 5 de agosto de 1993 entrou para a história do futebol mundial: de cabeça, Ronaldo marcou seu primeiro gol como jogador profissional na vitória de 2 a 0 do Cruzeiro. Jogada que pode ter ficado sem registro em vídeo, mas que não sai da lembrança do goleiro que buscou a bola no fundo da rede: Diamantino Tomé Figueiredo.

Atualmente com 50 anos de idade, Figueiredo é preparador de goleiros do Olhanense, nono colocado da Primeira Divisão do Campeonato Português. O ex-jogador era o camisa 1 do Belenenses, então treinado pelo brasileiro Abel Braga, e lembra bem do dia que conheceu o menino Ronaldo de 16 anos. Infelizmente, não tem e não conhece nenhum vídeo com o lance. Mas as imagens estão bem guardadas na cabeça de Figueiredo.

- Lembro perfeitamente da partida inteira. Nunca saiu da minha cabeça. Tive curiosidade de acompanhar a carreira de Ronaldo depois daquele jogo. Ele tinha muita qualidade, era fora do normal. O gol saiu depois de um cruzamento da direita, ele tocou de cabeça, por incrível que pareça, já que depois não fez mais muitos gols assim. Eu gostaria de ter este vídeo, mas não conheço ninguém que tenha. Talvez no Belenenses... Também não tenho recortes de jornal. Guardo tudo na memória - contou o ex-goleiro, por telefone.

Ronaldo estreou pelo Cruzeiro em 25 de maio de 1993 contra a Caldense (vitória de 1 a 0), pelo Campeonato Mineiro. Depois, só voltou a campo em 29 de julho no 2 a 1 sobre o Atlético-MG, também no Estadual. Em agosto, a Raposa viajou para amistosos em Portugal. No dia 3, empatou em 1 a 1 com o Benfica, partida que marcou a estreia internacional do Fenômeno. O primeiro gol com a camisa celeste saiu no jogo seguinte, contra o Belenenses: 2 a 0.
No Estádio da Luz, Ronaldo usou a camisa 15 e atuou poucos minutos no segundo tempo. Mas contra o Belenenses o atacante ganhou uma chance como titular. Para espanto dos portugueses, brilhou. Além do gol, deixou Figueiredo encantado com várias jogadas de efeito. Pelo menos uma o goleiro conseguiu salvar.

- Depois do gol, ele driblou três, quatro, a zaga toda, puxou para a direita e chutou. Defendi. Antes do jogo, nunca havia escutado falar nele. Ninguém conhecia. Mas depois, sabíamos que ele era fora do normal. E isso se confirmou - disse.

Curiosamente, a partida marcava a estreia no Belenenses do atacante Cleisson, ex-Cruzeiro. Mas, quando o juiz apitou o final do amistoso, os jogadores do time português só pensavam em uma: por que o clube não contratou o "miúdo" Ronaldo?

- Ele jogava muito, era impossível algo assim. Foi um jogo brilhante, nunca vi um miúdo fazer aquilo. Eram coisas de outro mundo. O Abel chegou a dizer que o clube deveria contratá-lo. Nós também! A diretoria chegou a pensar nisso, mas as vagas de estrangeiros já estavam completas. Se eu soubesse desse talento todo, eu mesmo teria comprado o passe! - brincou o treinador de goleiros do Olhanense.

Figueiredo encerrou a carreira em 1997, ano que o Fenômeno conquistou pela segunda vez o prêmio de melhor jogador do mundo pela Fifa. De longe, a primeira vítima acompanhou a carreira do craque, comemorou como se fossem conquistas de um velho amigo e nunca lamentou ter levado o gol que colocou Ronaldo no caminho para brilhar no futebol.

- Esse foi um gol que nunca me importei em ter sofrido. É um orgulho. Sou pé-quente. Costumava brincar assim: "Ronaldo fez o primeiro gol em mim. E se fez gol em mim, vai conseguir fazer em qualquer um" - concluiu.

E ele fez...

Artigo da autoria de Thiago Dias publicado no 'globo esport.com' em 15/02/2011 - Fotos: 'A BOLA' e 'Divulgação'
Post actualizado em 09/04/2011.

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